Tudo aquilo que nunca deixaremos para trás
Algumas pessoas contam o tempo em anos, outras em minutos, algumas outras em décadas.
Eu conto o tempo em gatos.
Tenho cinco gatos de idade, e é por eles que me localizo na vida. Não lembro exatamente em que ano eu estava pra ser reprovado na escola por indisciplina e desatenção, mas lembro que a Mariana – minha primeira, um simpático gatinho frajola que tinha uma compulsão por tomates – era sempre quem dava a última palavra sobre o meu penteado antes de sair.
Meu primeiro pé na bunda realmente dolorido quem ficou sabendo em primeira mão foi minha melhor amiga, a Cecília – a gata tricolor (o que é um pleonasmo, porque se tem três cores é gata, me contaram) que falava sozinha o tempo todo. Fugiu de casa, mas não antes de se despedir, e com uma certa cerimônia que me faz pensar se não era vontade dela que eu fugisse junto.
Demorou anos para que eu entendesse o sábio conselho.
Fiona – vulgo Fifys – não era minha, assim como não foi meu o período que passamos juntos por circunstância. A vida nos escapava, e de certa forma fomos sozinhos juntos. Mesmo assim, Fifys era – e ainda é – diva. Maior do que a vida, sempre – e com complexo de cachorro, além da insegurança feminina que ela demonstrava fazendo fu para uma estátua de gato.
Até nos ciúmes ela é metafísica, de certa forma.
E hoje 13 anos de minha vida mudaram. Moniquinha, o gato que me acompanhou por mais tempo, sucumbiu ao câncer, e passei boa parte da noite em uma triste festa de lembranças. Meu passado e o dela, acontecendo todo ao mesmo tempo.
Nasceu enquanto eu dormia, e a mãe sempre a largava no meu peito, porque era onde ela parava de miar e finalmente tirava um cochilo. Abri os olhos dela, porque estava na hora e ela não conseguia. Ela abriu meus olhos, porque estava na hora de eu aprender a lidar com alguém que realmente não desgrudava de mim.
Só diminuiu a atenção quando conheceu a “prima”. Brincar com uma menina de 4 anos era um dos esportes favoritos dela, e foi até recentemente – minha sobrinha, mesmo com 13 anos, ainda arrumava tempo para brincar com a gata. Mas mesmo assim, sempre me acompanhou de perto.
Acidentes, problemas, amores, desamores, gostos e desgostos – todo dia, por pior que fosse, era dia de Moniquinha. Era ela que, com toda sua tigrice cinzenta, miava: tá tudo bem.
Quando alguém se vai, a história se interrompe e cristaliza. E dentro desse cristal o passado se compacta, se contorce, se torna um único momento absoluto, que resume tudo. Dentre tudo aquilo que está sendo feito, uma parte se torna pronta.
Mesmo ausente – Moniquinha ficou na casa dos meus pais, por adorar a vovó e a prima – eu sempre soube que existíamos os dois fisicamente. Que ela era um bichinho com vontade própria, e que ela poderia estar aprontando qualquer coisa que eu só iria saber depois, quando ligasse para minha mãe.
Hoje, depois de sacrificá-la para poupá-la da dor de um câncer avançado, eu sei que apenas o reflexo no espelho sobrevive. Não há mais nada de frente para ele.
O espelho sou eu, e a centelha de vida daquele gatinho brilha apenas no passado cristalizado, que minha mente se esforça para tornar presente, em meio ao caleidoscópio de imagens, universos e vidas paralelas, em meio a todos os outros cristais de passado, cujo ritmo de formação se acentua dia a dia, até que minha própria cabeça entre em colapso e se estilhace.
Convivi tanto tempo com esse gato que minha mente criou uma réplica dele, para que eu não sentisse tanta falta – e esse reflexo é tão vivo que a lembrança é capaz de criar novidades, e de reagir ao inesperado. É um gatinho fantasma, que agora mora comigo, junto com todos os outros que começam a falar comigo e a abrir os olhos assim que fecho os meus.
Uma adorável centelhinha, que ainda me cobra que eu a chame de “hermosa muñeca, hecha del más bello peluche”. E ainda mia, em sua cinzenta tigrice:
“Tá tudo bem”.

Bela homenagem. É sempre muito ruim perder um bicho, eu choro até pelos q não conheci, inclusive sua Moniquinha. Mas o que eles deixam de boas lembranças e bons momentos na nossa vida certamente valem a dor da perda, pois essa já é esperada, sabemos que vai chegar uma hora e nos preparamos pra ela. O que não estamos preparados e é sempre uma boa surpresa são suas personalidades e atitudes que trazem felicidade pra gente todos os dias e sem esperarmos estamos sorrindo, mesmo nas horas tristes. Sua Monica nunca será substituida, mas cada bicho que passa pelas nossas vidas só aumenta o tamanho do nosso coração, no final ele será tão grande que nem sabemos como pode caber tanto amor.