Construindo fotografias

foto cortesia © HP/ Solução e Imagem

Se tem alguma coisa que realmente prezo e admiro, é a sincronicidade. Aquela série de pequenas coincidências que fazem com que nossas reflexões se encaminhem para um único assunto – e o assunto deste post é fruto dessas pequenas coincidências.

Ao conversar com artistas do calibre de Scott MacLeay, Cris Bierrenbach e Nanã Souza Dias, para citar apenas aqueles com quem pude ter a sorte de ter contato nos últimos meses, percebi que todos eles compartilham uma característica: o cuidado e conhecimento do suporte de suas imagens.

Hoje em dia dissemina-se a idéia de que basta imprimir sua imagem, qualquer que ela seja, em papel de qualidade museológica, qualquer que seja ele, dotá-los de um certificado de autenticidade e tcharam! Temos uma obra de arte. E acredito que esse raciocínio seja um tanto inadequado.

Substrato, assim como equipamento fotográfico e tecnologia de pós-produção, é ferramenta, não uma finalidade em si.

Deixem-me exemplificar: quando conversei com Scott MacLeay sobre as maravilhosas ampliações no sistema Fresson, ele deixou bem claro uma coisa: o print Fresson foi uma maneira de preservar, na ampliação, uma característica delicada – a luminosidade de um diapositivo, em um contexto de fotografias com pouca tridimensionalidade, contraste ou mesmo textura. As superfícies das fotografias de MacLeay eram um ponto crítico que precisava ser corretamente reproduzido.

Para se beneficiar de um print Fresson, uma fotografia precisa ter características muito específicas.

Mesma coisa com os daguerreótipos de Cris Bierrenbach: apenas aquelas condições de reflexão, os brilhos e “fantasmas” do daguerreótipo poderiam dar vazão às idéias dela sobre sua série de “autorretratos” – para quem quer ver as imagens, estão em seu website, mas as imagens escaneadas definitivamente não fazem jus à coisa viva que é o daguerreótipo. Nanã Souza Dias também fala com paixão de suas impecáveis ampliações PB, dotadas de uma personalidade que transcende a imagem escaneada, circulante pela Internet.

Três exemplos, uma única conclusão: antes de nos aventurarmos pelo mundo dos nobres suportes “fine arts”, acredito que seja essencial um mergulho nas mensagens e necessidades de nossa própria fotografia.

Avançar rumo aos mais modernos papéis e impressoras do mercado, ou recuar aos processos clássicos, é percurso exigido pela sua fotografia em busca da própria personalidade e relevância enquanto objeto fotográfico. Cada série exigirá um percurso diferente.

Mesmo no mundo da impressão giclée, há dezenas de opções, cada uma com uma característica marcante, que revela, potencializa ou esconde virtudes de nossas imagens-  em uma simbiose que está sendo claramente subestimada. Não basta apenas ir a um atelier de impressão e escolher o suporte que está na moda, o papel mais baratinho ou o mais sofisticado.

É necessário imprimir, testar, olhar, tocar, apaixonar-se pelas diferentes encarnações da imagem, buscar dentre elas aquela que é inigualável. Ouvir o que sua fotografia tem a dizer, e só então dar-lhe o suporte apropriado, qualquer que seja ele. Suas imagens agradecem.

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