Quanto tempo sem postar… se existe uma desvantagem nas redes sociais e blogs, esta é que você se sente culpado quando não dá as caras por algum tempo.
É complicado ser recluso hoje em dia.
Mas perdoem-me o momento artístico- eremita, passei aqui na verdade para compartilhar algumas impressões… Fato é que estive em Salvador, presente à última edição do Photoshow, congresso de fotografia realizado por meus amigos Danilo Russo e Altair Hoppe. E presenciei um momento que me fez pensar.
O mais interessante de congresso é a variedade. Vemos as opiniões mais diversas e os métodos mais variados – basicamente, cada profissional tem seu método pessoal e intransferível para resolver os problemas de seu ofício.
Mesmo assim, em meio a uma das palestras, um rapaz se levanta e faz um angustiado protesto, mais ou menos com estas palavras:
- “Poxa, eu vejo a palestra da Márcia (Charnizon) e ela defende o RAW, o Evandro (Rocha) clica em JPEG, uns usam flash, outros luz contínua… e eu? O que eu faço?”
Compreendi a angústia do camarada, juro que compreendi.
Um pequeno erro de conceito pode levar (e leva) muita gente ao mais puro desespero fotográfico.
Uma vez defendi que não se aprende a fotografar em congresso, isso é tarefa de escolas de fotografia – mas desta vez o equívoco não é esse. E pra esclarecer a gente tem que examinar duas peças:
Para ver a primeira, temos de recuar mais de dois mil anos, lá pra antiga Grécia, quando Heródoto definiu o termo techné como o “saber fazer de forma eficaz”.
Dali para frente, tornou-se famosa a dualidade entre techné (destreza, habilidade) e episteme (conhecimento). Enquanto para os antigos gregos a episteme era o conhecimento teórico, a techné era um conhecimento prático, que visava um objetivo concreto.
A segunda peça é ligada à criatividade. Segundo o Aurélio:
- Criar. V.t.d. 1. Dar existência a; tirar do nada. 2. Dar origem a; gerar, formar. 3. Dar princípio a; produzir, inventar, imaginar.
- Criador. Adj. Inventivo, fecundo.
- Criatividade. S. f. Qualidade de criador.
Ou seja, criatividade é qualidade de um criador, ou seja, uma pessoa que é inventiva e produz algo que não existia anteriormente. Uma ideia, uma teoria ou um método novo para resolver um problema antigo. Segundo um camarada chamado Brewster Ghiselin, a medida da criatividade de um produto qualquer é “a extensão em que ele reestrutura nosso universo de compreensão”.
E como se produzem novas ideias, como se faz para criar?
A criação depende de inspiração, dizem. E a inspiração nada mais é do que o resultado da fusão de ideias que acontece no nosso subconsciente, o que chamamos de imaginação.
Estamos constantemente combinando e recombinando elementos em nosso subconsciente: e se eu fizer isso? E se eu fizer aquilo? Quanto mais absurdas as combinações, mais provável é que resulte disso uma síntese improvável, que poucos visualizaram ou deram continuidade.
E é assim que aparecem soluções particulares para problemas específicos. E nossa techné vai ficando, digamos assim, “personalizada”.
Então qual o ponto em se freqüentar eventos com palestrantes de opiniões, soluções e destrezas tão diversas?
A escola de fotografia ensina a técnica básica, enfim, como resolver uma imagem. Posteriormente, aponta caminhos e apresenta o aluno a grandes profissionais, do passado e do presente.
O congresso permite fazer uma ponte entre o fotógrafo e outros profissionais – o palestrante coloca-se numa vitrine onde ele expõe seu processo criativo e sua techné, além de seus problemas particulares. Vemos o panorama todo: problema, solução, processo criativo e personalidade/segmento do solucionador. E isso pode nos enriquecer de várias maneiras, como:
1 – Identificação. A mais óbvia delas, é ver alguém com mais experiência resolver problemas exatamente iguais aos nossos de uma maneira que não imaginamos e que podemos incorporar à nossa destreza prontamente e sem nenhuma alteração;
2 – Contraponto. Não se sinta inseguro ao discordar de qualquer profissional – questione as discordâncias, elas podem vir do reconhecimento da falta de identificação (“meus problemas não são esses”, “meu público alvo não é esse” ou “eu sou um tipo diferente de profissional”) ou de uma maior confiança na solução que você desenvolveu para esse problema.
3 – Repertório. Às vezes uma solução técnica de um workshop de still pode ser aplicada a uma situação totalmente diferente.
Mesmo que aparentemente inútil à primeira vista, a convivência com a destreza de outros profissionais traz elementos para a enorme confusão que temos no subconsciente, aumentando enormemente a quantidade de combinações de informações. E consequentemente, aumentando a probabilidade do aparecimento de uma solução criativa e inusitada.
Fotografia é amplamente baseada em criatividade, e possui uma técnica vasta e sofisticada.
Observando esses elementos, essas duas “peças” – destreza e criatividade, fica fácil entender o porquê de tanta discordância, que à primeira vista parece incoerência. Afinal estamos discutindo método, não o objeto desse método.
Não tem a ver com o “latest trend” (que seria algo como “o que todo mundo está fazendo agora”, “a nova moda”), mas com ver o maior número de soluções possíveis para o mesmo problema.
Portanto, se ao sair de um congresso de fotografia você se sentir confuso, meus parabéns. Você acabou de dar o primeiro passo não para adotar um método, mas para construir um novo.